O VESTIDO
A sala de costura cheirava a uma mistura de mofo e tecido envelhecido, mas ainda assim era um lugar aconchegante. Era cedo, e ela havia chegado muito antes que todas as outras, empolgada para finalizar aquele vestido, aquele que seria usado por uma das bailarinas da Cidade Iluminada, no festival, mais tarde naquela noite.
Caminhou solene entre as mesas repletas de retalhos, linhas, agulhas, e, claro, as máquinas de costurar, então foi até o seu cantinho e lá estava ele – roxo com detalhes em dourado. Estava ficando maravilhoso, faltava apenas alguns retoques. Conferiu as medidas da bailarina em um papel largado que estava quase caindo no chão, e logo apoderou-se de uma agulha.
Tímidos, os raios de sol entravam pela janela e davam um ar mais quente para o recinto, e então ela costurou - passava a agulha pelo tecido com cuidado, mas sem dúvida alguma com toda a maestria de uma grande costureira. Tinha apenas dezesseis anos e era uma das melhores trabalhadoras do atelier, já havia feito vestidos e casacos para muitos eventos da cidade dos estudados, mas este era diferente, era um vestido para dança.
Sempre quis ser bailarina, mas nunca teve a oportunidade de entrar para uma escola de dança, ou mesmo de estudar qualquer outra coisa, assim era a vida nas Cidades Baixas. Seguia o legado de sua família e o pouco que ganhava ela juntava para pagar seus estudos no futuro, se é que conseguiria.
Os longos cabelos castanhos caíam sobre a vestimenta acomodada em seu colo, vez em quando tinha que tirar a franja da frente dos olhos para que não fizesse algo errado e estragasse sua produção, aquela que seria um tremendo espetáculo na praça central.
Quanto mais próximo de terminar o vestido, mais os seus olhos brilhavam e um sorriso se abria, não só porque estava lindo, mas também porque, curiosamente, as medidas da bailarina eram as mesmas que as dela – ela o vestiria e dançaria pela sala de costura.
Se olhou no espelho que havia próximo de sua mesa, completamente sujo, e, de fato, o corte lhe caiu perfeitamente, seus olhos começaram a ficar molhados e então imaginou uma melodia e começou a rodar. Nunca antes ela havia se sentido tão leve, livre e feliz, lágrimas escorriam de seus olhos fechados enquanto ela abria caminho pelas sacolas cheias de retalhos e esbarrava de leve nos pertences das outras costureiras do local. Seu cabelo rodava e girava junto com o vestido, seus braços acompanhando e os pés dando o ritmo, o direito fazendo a curva que impulsionava o seu quadril, trazendo o esquerdo que repetia o mesmo movimento. Nada antes em sua monótona vida foi tão sublime quanto aquele momento, e foi-se rodando, chegando ao fim do corredor e terminando a sua apresentação, realizada.
A sua alegria, no entanto, mesmo que contagiante a ponto de fazer com que ela sentisse um calor forte vindo de suas entranhas e chegando até a garganta, aquela felicidade avassaladora que até a deixou enjoada, foi momentânea. Despiu-se e colocou o vestido no cabide, branco, especialmente ornamentado com detalhes em dourado. Mais tarde todos seriam levados de uma só vez até o camarim das bailarinas, do outro lado do muro.
Anoiteceu. Vestiu-se da melhor forma que pôde, mesmo que ninguém importante fosse a ver, e correu até o terraço de uma casa próxima do muro, que felizmente era de um conhecido seu, assim poderia observar um pouco do grande evento de uma posição privilegiada para os padrões das Cidades Baixas.
As luzes da praça eram fortes e não deixavam sequer um ponto sem claridade, e lá estavam as vinte bailarinas, cada uma com vestidos de cores diferentes, e, atrás delas, a banda composta dos mais diversos instrumentos. A plateia se organizou ao redor da praça e algumas pessoas se acomodaram nas janelas de casas próximas.
Não era a primeira vez que ela assistia a um espetáculo de dança na Cidade Iluminada, mas um vestido feito por ela, era inédito. A música começou e as bailarinas avançaram, sincronizadas, fazendo movimentos suaves e coordenados, a parte rodada dos vestidos levantando, seguindo o ritmo até o grande momento em que todas começaram a rodar. Seus olhos, mais uma vez se tornaram úmidos, mas ela sorria e mimicava os movimentos, rodando sem sair do lugar. Ela queria estar ali, mas testemunhar o seu vestido ser protagonista daquele lindo espetáculo lhe bastava, por enquanto. Um dia ela chegaria lá.
Um dia.
