A TORRE


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LUTCESTER Nº2 - A TORRE

O ar estava pesado em seu quarto, de tamanho moderado, em que havia uma cama, uma escrivaninha repleta de livros acadêmicos entre outros móveis comuns para o recinto de um jovem estudante universitário. Ele estava estudando avidamente quando começou a se sentir cansado, afinal, já eram três horas da madrugada e ele estava de pé havia muito tempo, empenhado em estudar o máximo para não deixar a desejar no exame, dali a algumas horas.

As pálpebras pesavam, os pés se arrastavam e era como se sua cabeça estivesse girando. Conseguiu se jogar em cima da cama, com a barriga para cima, e por mais que a exaustão o fizesse se sentir sonolento, ele simplesmente não entrava de fato no mundo dos sonhos. Era estranho.

A janela estava aberta e o vento noturno que lhe tocava a face era gelado, mas mesmo assim ele sentia calor. A vista dava diretamente para a Torre, onde estudantes de astronomia costumavam ir para observar o céu. Era uma construção imponente e um dos cartões postais da Cidade da Luz, lar para os estudantes e suas famílias. Ficou observando a estrutura durante um bom tempo.

Dormiu.

Sua avó lhe dizia, quando era menor, que dormir era uma grande viagem pelo inconsciente e que muitas vezes os sonhos poderiam ser premonições, ou avisos. Ele nunca se importou muito com o que ela dizia acerca desse assunto, não acreditava nessas coisas.

Até que ele estava no topo da torre. Sua visão estava embaçada e ele continuava se sentido pesado, como se tivesse que fazer o triplo do esforço para se locomover e respirar. Quando percebeu onde estava seus olhos se arregalaram e seu coração começou a disparar como se fosse saltar pela boca. Não fazia ideia de como havia parado ali e a adrenalina pulsando por suas veias o deixou agitado.

Em um instante um alto e forte barulho de bater de asas quase o ensurdeceu, e ao menos dez corvos passaram voando bem próximo ao seu rosto, indo para os céus e desaparecendo na escuridão. Ele começou a se sentir enjoado e a luz da cidade, lá embaixo, o cegava, mesmo que a maioria delas estivesse apagada, devido ao horário.

Se apoiou na grade logo à sua frente e tentou se acalmar, até que ouviu alguns passos atrás de si, mas não teve coragem de se virar. À medida que o som se aproximava, o seu corpo reagia em puro medo. Um calafrio que iniciou-se no fim de sua espinha e percorreu todo o corpo, as pernas trêmulas, uma dor atrás dos olhos e até as costelas reclamavam, doloridas.

A pessoa se apoiou na grade, ao seu lado. Vestia um sobretudo e um chapéu coco, e devido à falta de iluminação ali em cima não era possível identificar seu rosto. O jovem olhou de relance para o homem, que não havia dito nada até então, e cada vez mais ele sentia que iria vomitar ali mesmo.

- Uma vista e tanto, não acha? – a voz era profunda e um pouco arranhada.

Ele não conseguiu responder, era como se sua garganta estivesse bloqueada por uma pedra. Tamanha era a dor e desconforto que sentia, mas ele não conseguia afastar a vontade de virar-se e olhar diretamente para o homem.

- Poucas pessoas estão acordadas à esta hora, ainda mais aqui em cima, na Torre. – havia uma pena de corvo em seu ombro, a qual ele retirou – Gosto de vir aqui às vezes, observar os pássaros.

Um corvo pousou na grade, logo ao lado do rapaz, e o clima pesado só aumentava, a pressão que ele sentia era tanta que parecia que seus olhos iriam simplesmente explodir.

- Diga-me - e assim que o homem proferiu estas palavras, o rapaz virou-se e o fitou diretamente - você consegue ver além do que lhe é colocado diante dos olhos?

E ele viu.